terça-feira, 10 de janeiro de 2012

DER SANDMANN: O HOMEM DA AREIA prévia do meu novo espetáculo

Há praticamente dez anos comprei um exemplar de "O Castelo Mal Assombrado", de E.T. A. Hoffmann. Já havia lido Andersen, Neil Gaiman e Edgar Allan Poe, mas me impressionou ler Hoffmann e o terror psicológico de seu "O homem da areia". O conto é de 1815, um pouco antes das vertiginosas alucinações de Poe. Me apaixonei, por certo. Em 2005, fiz uma leitura dramática no Quintal das Árvores, no extinto Sarau Arte Canal, produzido pelo Alucinógeno Dramático na época.
No final do ano passado, revirando papéis em busca de uma adaptação de Dom Casmurro para teatro, me deparei com o roteiro datilografado de 2005. Li, gelei e pensei: por que não Hoffmann? Assim nasceu o desejo de realizar esta montagem.


Mas adaptar o texto de Hoffmann não me bastava. Queria algo a mais. Resgatei Andersen e Neil Gaiman nesta viagem, além das lendas e mitos ligados a esta entidade dos sonhos. Descobri coisas interessantes, como a bruxa canadense que age igual à nossa Pisadeira, que desce do teto para nos paralisar e tirar nosso ar. Buscando um caminho cientifico, reencontrei a aterrorizante paralisia do sono - quem já teve sabe como é assustador! - juntamente com mais de uma dúzia de disturbios do sono que acabaram por gerar muitos mitos nas imaginações mais férteis. Me apropriei de tudo.
DER SANDMANN: O HOMEM DA AREIA conta a história de Natanael, que tem pesadelos seguidos de paralisia do sono. As crises estão piores porque ele acha que reencontrou Coppelius, o suposto assassino de seu pai, na pessoa de Coppola, um vendedor ótico. Clara, sua noiva, o convence a procurar um psiquiatra e se medicar. Para relaxar, Natanael viaja ao interior, para casa dos avós, mas os mitos e lendas como João Pestana, Maria da Manta, Pisadeira e outros derivados de Morpheus se fazem presentes de várias formas. Natanael termina o noivado e se apaixona por Olímpia, filha de um dos professores da universidade. O amor entre ele e Olímpia floresce, e ele se vê curado de seus medos e pesadelos. Mas o que Natanael não sabe é que a realidade, por vezes, é mais estranha que a própria imaginação. Ele então se encontra mergulhado em vida em seus piores pesadelos.
O monólogo será dinâmico. Interpretarei três personagens que farão o publico vivenciar a experiência de Natanael. Convidei Tarcisio Hayashi (G.R.A.ve) para compor a trilha sonora original e, é claro, utilizarei Jacques Offenbach, Freud, Jung, Metallica, Roy Orbison e outros que foram inspirados, direta ou indiretamente, pela existência de Sandman, e que não podem ficar sem citação.

Ninguém conseguirá dormir com um barulho desses. Todos irão sonhar com este novo espetáculo do Alucinógeno Dramático Teatro & Pesquisa.

TRECHO DO ROTEIRO

CENA 01 –  NA ESTRADA
MUSICA.
LUZ
Natan dorme tranqüilo mas começa a ser agitado por um pesadelo. Súbito. Paralisa. Acorda assustado e senta-se. Respira. Toma comprimidos.
NATAN
O que está vendo é realmente o que você está vendo?
Você já viveu um momento estranho e familiar ao mesmo tempo?
A sensação que percorre as veias, o olhar que alucina, a respiração que ofega...
Os amigos querem entender, mas como explicar o que se sente com palavras?
Palavras são frias, mortas e descoloridas.
Pra entender, é preciso viver...Mas só você pode viver isto!  (Telefone toca. Natan atende)  
Alô? Bom dia, amor. Tudo bem.
Sonhei.  O mesmo sonho.  Eu sei. Eu sei que não existe.
Preciso voltar pra estrada.  Te ligo, amor. Beijo. (desliga)
Você nunca deitou na cama e teve a impressão que havia um estranho ao seu lado, te observando no escuro?
                            (para Emilia) Tá olhando o quê?
Você não sabia que eu tenho um... pequeno distúrbio noturno?  
 Maldito pesadelo! E antes fosse apenas o pesadelo, mas o pior não é isso.  
Imagine, Emilia, você desperta de um pesadelo, mas não consegue se mexer, não consegue  falar, você mal respira. Está paralisada!
Em seu ouvido, uma voz dizendo coisas ruins, e você não pode falar, gritar ou pedir ajuda.
E não importa se isto dura segundos ou minutos. A eternidade do medo vai alongar o seu sofrimento.
Eu tento escapar. De dia, tomo Ritalina e, de noite, Clonazepam. O problema é que
eu sempre me esqueço de tomar um ou outro. Ou seja; só me medico depois de ter
sofrido o mal.
O mal...
Conheci o mal ainda criança. 
Toda noite, depois do jantar, a gente sentava perto do papai para ouvir suas histórias. Depois, mamãe nos mandava pro quarto, dizendo que o Homem da Areia tava chegando. No quarto, deitado na cama, eu ouvia os passos subindo as escadas. Era o homem da areia indo ver papai.
         Um dia perguntei pra mamãe quem era o homem da areia, mas ela riu e disse que ele não existia, que era só um jeito de dizer que a gente tava com sono. Não acreditei.
         De noite, perguntei pra empregada, e ela disse que era um velho que arrancava os olhos das crianças que não dormiam e levava para seus netos comerem no lado escuro da lua. Nela eu acreditei, e por anos vivi o terror de ouvir o homem da areia subindo as escadas para encontrar papai.
         Com dez anos, eu não acreditava mais na história, mas o homem da areia continuava subindo as escadas da minha casa. Uma noite me escondi no gabinete do papai pra descobrir quem era o homem de areia. Quando ele entrou, eu descobri que ele era Coppélius, o advogado.  
                  E ninguém seria mais assustador!
Imaginem um homem grande, ombros largos,
cabeça inchada, rosto amarelado, olhos verdes,
boca que retorcia sorrisos maldosos,  
mãos ossudas, compridas, imundas, peludas e nojentas.
          Papai o tratava como se fosse superior, mas mamãe também não gostava dele.  Ele trazia tristeza pra nossa casa.
NATAN
         Ele Abriu um armário. Dentro, cabeças humanas, sem olhos. “Os olhos! Os olhos!”, ordenou Coppelius ao meu pai.  Apavorado, sai do meu esconderijo e tentei fugir, mas Coppelius me segurou com uma força incomum e quis arrancar meus olhos.
         Desmaiei.

BLACKOUT

NATAN          
          Acordei nos braços de minha mãe.
          Perguntei se o Homem da Areia tinha ido embora.
          Ela disse que sim, que ele nunca mais voltaria.
          Mas ele voltou um ano depois.
          Lembro que mamãe olhou pra papai e ele disse que era a última vez.
          Mamãe nos levou pra cama.
          No meio da madrugada, uma explosão balançou a casa.
          Corremos para o gabinete do papai e ele estava sozinho, morto...
          ... E sem os olhos.
                                                                       LUZ
NATAN
         Os pesadelos não me deixam dormir desde então,
          mas agora estão mais intensos, e eu sei por quê.
Eu achei Coppelius. Ele finge ser um vendedor chamado Coppola.
Eu já sei tudo sobre ele, até mesmo o dia em que vou me vingar.
Mas eu cometi um erro:
          escrevi uma carta contando pro meu cunhado, a minha noiva leu e me enviou esta:
         Amado Natanael, achando que a carta enviada por ti era pra mim, abri. Devo dizer que fiquei muito apavorada; mal dormi à noite. Mas de manhã, após refletir, cheguei a conclusão que tudo é fruto da sua imaginação.  Coppelius, o advogado, era, sem dúvida, asqueroso, mas não acho que ele matou seu pai. Acredito que ambos faziam experimentos químicos ilegais. Quando tudo explodiu, Coppelius fugiu para não ser pego pela policia.  Por isto, meu amado noivo, esqueça o advogado – e esqueça o vendedor, também. O único poder que eles tem é o que você dá pra eles. O homem da areia não vai arrancar meus olhos. Com amor, Clara.
         Ela diz que Coppelius e Coppola não existem, e que vão desaparecer no ar assim que eu deixar de acreditar. Inferno! Claro que eles existem! ...E claro que não são a mesma pessoa! Um é alemão e o outro é italiano, mas um me lembra o outro, independente do buraco de onde tenha saído. Devem ser a mesma pessoa, mesmo que não sejam.
          Para evitar o fim do meu noivado, resolvi passar no psiquiatra e tomar os remédios. Entorpeci a vingança.
         Estou indo pro interior visitar meu avô e esquecer tudo isto.  Estou até levando um presente pra minha sobrinha. Ouviu, Emilia? Vou te deixar com a Selminha e voltar pra Cidade...
         O engraçado é que, quanto mais perto do interior, mais pareço mergulhar nos pesadelos...
MUSICA

BLACKOUT


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

RABERUAN EXPERIENCE

(Darkney, Raberuan e Marcelo San no evento Quintas Culturais)

Sinto informar a todos, amigos e artistas, que hoje faleceu nosso amigo, cantor, poeta e muitaas vezes mentor, companheiro de sorrisos e lágrimas: RABERUAN. Ele viveu a trilha louca de suas canções e cumpriu sua parte entre nós. Mesmo assim, decorrido seu tempo de existência, no universo fica um vazio a ser sentido que, se não preenchido pela sua presença fisica, ao menos pela sua obra. Palmas para o artista. O show terminou. Mas a obra persiste, eterna, fluente e moderna. Saudades...

foram as primeiras palavras que escrevi ao saber do falecimento de meu amigo. sepultado no sábado as 15h, notei que a página encerrou-se nesta tarde, quando Sheila Rios publicou a foto acima no Facebook. Eu, que senti os olhos úmidos no ultimo cortejo, molhei os rosto de lágrimas ao perceber que era o fim.

Conheci Raberuan através de Sacha Arcanjo, em seu quintal, e me apaixonei pela figura. Raberuan foi o primeiro artista do quintal do Sacha a elogiar - para Ivan Neris e não pra mim - meu estilo musical. Também foi o primeiro a ouvir minhas canções com atenção verdadeira e comentar sobre elas. Estive ao seu lado em vários momento, como no Show do KaiKan como operador de luz ou mesmo com a Banda Deus Ex Machina, tocando em um evento organizado por ele. Sempre me convidava ao palco e tentava me apresentar para pessoas que ele achava interessante eu conhecer. No mais, acompanhei um pouco de sua doença, vendo-o fazer pouco caso da morte ao beber e fumar sempre que dava na telha. O bicho era foda. Sexo, drogas e muita, muita música sempre com humor, lirismo e cordialidade, era uma figura e tanto. Ainda me apresentou um parceiro musical perfeito, seu sobrinho Eduardo Murena, com quem gravei no CD Ssacha 60 uma faixa e com quem espero poder gravar em breve. Fica a saudade, o vazio, o respeito e uma certa alegria em ter conhecido este cara que, por onde passava, não deixava nada igual, nada ileso. Rock n roll de pau duro em ritmo de mpb.

domingo, 4 de setembro de 2011

OS LABIRINTOS MENTAIS DE LADY MACBETH

          
  Após a estréia de “LADY MACBETH” sábado retrasado – e de ter ouvido alguns comentários –  decidi escrever algo sobre ele. Não com o intuito de explicá-lo (Chico Buarque sabiamente já disse que, quando um artista precisa explicar a arte para o público, um dos dois é burro) mas sim deixar claro - ou obscuros - alguns caminhos que percorremos para sua criação. Na verdade, tomei esta decisão até por sugestão de Escobar Franelas que, do alto do seu conhecimento artístico, não compreendeu – assim como muitos outros artistas presentes – que o volume exagerado da música do Joy Division era proposital. 

GENTE, NÃO TEM NADA NOVO AQUI!
Na verdade, o espetáculo não apresenta nenhum desafio intelectual. Lady Macbeth, após incentivar o marido, Barão Macbeth, assassinar o rei Duncan, vê o marido mergulhar em carnificina para manter o trono da Escócia. Ela enlouquece e atira-se da torre do castelo. O espetáculo representa justamente os momentos de insanidade da rainha, numa retrospectiva non sense de seus atos,  peso na consciência, arrependimento. O que temos em cena é uma louca que delira antes do suicídio. Ainda assim houve gente que saiu dizendo “Gostei, mas não entendi.”... A única coisa a ser entendida é que Lady delira. Para entender estes delírios é necessário conhecer a peça de Shakespeare, com certeza, mas uma pessoa de mente aberta perceberá certamente que o jogo vai neste sentido.

TEXTO NA INTEGRA
Cada cena, cada palavra, cada virgula. Tudo Shakespeare. “LADY MACBETH” é uma colagem de várias cenas do texto original, criando uma linha tênue de sentido ao espetáculo.

NON SENSE E SURREALISMO
O espetáculo trafega entre o surrealismo e o non sense, como nos filmes de David Lynch. Não há um sentido linear até mesmo porque estamos na mente de uma mulher insana que despedaça seus sentidos. Quer entender o quê, cara pálida? (como diria a índia Sueli Kimura).
Graças a esta lógica, nasceram cenas antológicas. Se as idéias iniciais são minhas (o filho despedaçado da Lady, a brincadeira com a luz e a provocação sensorial ao público), Anita também teve suas ótimas idéias e criou um final lírico, poético e rico em simbolismo. Quem tiver olhos pra ver, que veja.

A TRILHA (SONORA) DO SANGUE  
A trilha sonora do espetáculo é um show a parte. Composta por bandas do Reino Unido (Cocteau Twins, Dead Can Dance, Joy Division, New Order) e alguns clássicos da música mundial como Beethoven e Wagner. Cito aqui algumas peculiaridades para que o público possa usufruir melhor da sonoridade do espetáculo:

BEETHOVEN & FOLCLORE BRASILEIRO
Desde “Drácula” (2010) Anita trouxe aquela música aos ensaios “Alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado...” e por aí vai. A canção não foi aceita em Drácula, e  um ano depois ela traz para a Lady. Para abertura do espetáculo, escolhi “Sonata ao Luar”, do Beethoven, para dar uma clima ameno e poético para o inicio do espetáculo, uma falsa promessa de tranqüilidade nos próximos 45 minutos. Primeiro ensaio com som. Solto a música, acendo a luz e Anita entra cantando. Coisa mais linda do mundo. Abrantes juntou Beethoven e o nosso folclore de forma impar! Reconhecendo que está além das minhas capacidades, convido o músico Tarcísio Hayashi para dirigir aquele arranjo vocal. Ele aceita e  une profissionalmente tudo isto, colaborando com uma das mais belas cenas iniciais que já vi em um espetáculo. 

SHE’S LOST CONTROL          
As pessoas ficam muito incomodadas ao ouvirem Ian Curtis cantando “She’s lost control” em volume máximo e cobrindo a voz de Anita Abrantes logo na primeira cena. Na real, o texto, neste momento, não é importante, e sim a referência: Ian Curtis, vocalista da banda britânica Joy Division, que enforcou-se em 18 de maio de 1980. Uma década depois, ao ser questionado sobre a letra de suas canções, Bernard Summer (vocalista do New Order, que surgiu do Joy Division) perguntou ao jornalista quem disse a ele que a letra era mais importante que a música. Isto mudou totalmente meus conceitos cênicos estéticos sensoriais. E podem sair falando mal: o som vai continuar alto!


ELEGIA
Em certa cena, a música instrumental do New Order (Elegia) faz-se de tapete para a piração da Lady. A palavra “elegia” tem o significado de poema triste, consagrado ao luto e a tristeza. Durante um ensaio, disse a Tarcísio Hayashi que a música era do New Order. Ele espantou-se: “New Order, véio? Fazendo este climão!?!”  É, Hayashi. O que é a natureza, não?

LADY MACBETH OF THE MTSENSK DISTRICT
É uma ópera de Dmitri Shostakovich que encontrei acidentalmente na net, ao tentar baixar “Macbeth”, de Verdi.  Durante os ensaios, em conversas com Hayashi, descobrimos semelhanças sonoras entre Shostakovich, Villa Lobos e Arrigo Barnabé. A apropriação desta obra foi tão bem sucedida que até esqueci de Verdi.

VODU
A magia de Lady Macbeth bem que podia ser baseada nos celtas ou coisas assim, mas decidi colocar a macumba em cena. Tem gente que fica incomodada com a possessão da Lady e suas magias bardas ao som de tambores haitiano num vodu que muito lembra os pontos de umbanda e candomblé. Assustador!... E divertido!


RELAXE E VIVENCIE
Entrar em contato com uma mente que delira, se encontra e se perde dentro de um universo shakespeareano é uma experiência impar. Alguns sentem medo, outros mergulham com Lady do precipicio - e há ainda quem se solta no mar das palavras de Shakespeare e navega a deriva. Seja qual for o caminho escolhido, relaxe e vivencie. Lady Macbeth lhe mostrará os sinais sobre o significado da existência humana. .

LADY MACBETH
Da obra de WILLIAM SHAKESPEARE
Traduzido e Adaptado por CLAUDEMIR SANTOS
Interpretada por ANITA ABRANTES
Figurinos de MICHELE DIAS
Arranjo e preparação vocal: TARCISIO HAYASHI
Luz, som & direção: CLAUDEMIR SANTOS
Temporada: SABADO – AS 20H30
Até 24 DE OUTUBRO – ENTRADA FRANCA

Local: CASA AMARELA ESPAÇO CULTURAL
Rua Julião Pereira Machado, 07 – São Miguel Pta. – SP

                

sábado, 13 de agosto de 2011

LADY MACBETH: UM TREM DESGOVERNADO A CAMINHO


                LADY MACBETH é o primeiro espetáculo totalmente produzido na CASA AMARELA. Quando adaptei o texto para ANITA ABRANTES no inicio deste ano, passei para MARCOS FERSIL dirigir. Na impossibilidade de conduzi-lo neste momento, ele repassou pra mim. No primeiro momento, não gostei muito da idéia, pois queria me dedicar a outros projetos, mas devo confessar que está sendo muito bom. Anita está se dedicando ao máximo e trazendo bons resultados à parceria.
 A peça, que deveria estreiar hoje (13/08) mas foi adiada para 27/08 devido a possibilidades técnicas, está ficando deliciosa. A música, elemento importante em meus voos criativos, colabora e muito com o universo que Anita muito bem assimilou e enriquece. Tive o cuidado de escolher boa parte de músicos da terra de Shakespeare – devo citar que Joy Division é uma citação e tanto logo nas primeiras cenas. A morte trágica de Ian Curtis e seu aviso em “She’s lost control” caíram como uma luva na queda de Lady Macbeth.
Tratando-se de um monólogo – que é de um perigo fatal, pois muitos monólogos podem entediar se mal feitos – Shakespeare nos dá uma deixa e tanto para a criação, ao ter escrito a cena 1 do Ato 5, onde Lady delira em pesadelos diante do médico e da criada. Ali é onde o monólogo acontece, na mente de Lady Macbeth perturbada, louca após mergulhar na ambição e descobrir o preço dela. O texto, totalmente recortado do original, nos leva de sua ambição à sua loucura e nos revela o quanto a personagem é humana e contemporânea no mundo em que vivemos. A tradução é outro detalhe peculiar: a realizei em 2001 a partir do original em inglês, em um trabalho de 45 dias entre dicionários e outras traduções, comparando e escolhendo os sentidos que me pareciam traduzir melhor os significados das palavras do bardo.
Dando outra percepção dentro deste universo, entra Michele Dias dialogando com Anita e criando o figurino da Lady. Recém formada e cheia de percepção e sensitivismo, ela e Anita marcam encontros para definir como será o visual. Não interfiro nisto; confio nestas meninas.
                Há tempos não dirijo um espetáculo no AD (Medéia e Drácula foram parcerias muito bem sucedidas com Marcos Fersil). A experiência está sendo boa e a comunicação tranquila. Os ensaios ocorrem com uma sensibilidade genial. Me sento na técnica, aperto botões, e Anita solta-se no universo de Lady. Por vezes indico direções e corrijo imperfeições. Sendo seu terceiro espetáculo comigo, ela parece me entender melhor e segue a trilha, entregando-se à criação artística. Vai surpreender. Está me surpreendendo ao menos.
Nada mais a dizer. Ainda temos alguns ensaios pela frente – mas acredito que estamos criando mais um marco dentro da história do AD. E que seja sempre assim, amém.

LADY MACBETH
De WILLIAM SHAKESPEARE.
Interpretação: ANITA ABRANTES
Figurino: MICHELE DIAS
Adaptação e Direção: CLAUDEMIR SANTOS
De 27/08 a 24/09
Sábados as 20h30
Local:
CASA AMARELA ESPAÇO CULTURAL
Rua Julião Pereira Machado, 07
São Miguel – São Paulo – SP
       

quinta-feira, 7 de julho de 2011

EXPOSIÇÃO MEMÓRIAS DE MELISSA HAMLET

A partir do dia 16/07, na Casa Amarela Espaço Cultural, estará em exposição meus 35 trabalhos que fazem parte da série 'Memórias de Melissa Hamlet'. As pinturas são baseadas no meu espetáculo, que possui o mesmo nome, e foi apresentado na Oficina Cultural Luiz Gonzaga o ano passado. No momento estou postando algumas fotos. Mais tarde postarei um texto referente a esta experiencia.













sábado, 2 de julho de 2011

SOBRE SIMPLÓRIUS – UM ENSAIO

(Claudemir Darkney Santos por Davi Farias Alves, aluno do 3º ano primário da escola municipal Vicente Amato, 2006)


Nota: revirando meus documentos, encontrei este texto onde eu comento sobre a criação de uma canção. Achei de bom grado colocar aqui no blog para revelar um pouco do funcionamento da minha mente criadora. Com vocês também é assim? A realidade e a fantasia da arte se entrelaçam e se confundem? Gostaria de saber...
Bem vindos a Simplórius!

SIMPLÓRIUS

Quarta observei seus olhos
Capturando linhas no ar
Vi nos traços de seu rosto
Sua alma em cor exalar
Ela registra em belas formas
Imagens saborosas em seu paladar
Será que ela me percebe cego a olhá-la demais?

Hoje a chuva me persegue
Saí da cama pra me molhar
Eu caminhei por ruas tão amigas
Por onde mais eu poderia andar?
Amanhã São Paulo será um reino
Onde a princesa irá passear
Serei um pobre nobre vassalo a olhá-la demais?

Tenho sonhos de um rei (mas)
Sou um simplório espertalhão
Quero derrotar o dragão (e)
Livrar o castelo da maldição!

 Vejo estrelas em nosso céu
As nuvens estão a se mandar
Se Sampa é uma cidade fria
Isto não vamos evitar
Só espero que a terra não trema
Quero ter em quem me segurar
Será que ela percebe seus encantos enquanto eu a olho demais?
(02/05/08 – 22:31h)


Todo o artista que se preze tem uma visão particular sobre o mundo, e esta visão guia sua criação artística – assim acredito. A releitura da vida através de uma linguagem artística desencadeia percepções até então desconhecidas e não imaginadas no meio em que vivemos. Assim, a obra nasce. Comigo, o processo não é diferente. Segundo um amigo (salve, Josué da Sabesp, meu véio!), meu olhar sempre busca personagens no cotidiano, colocando pessoas normais em visões extraordinárias. Acho que é meio assim. Acho que foi assim que nasceram a bela princesa medieval e o abobado Simplórius – uma linha mitológica que abre espaço para muita criação artística, musical, visual ou literária. Mas como foi que a encontrei?

2008. Aula de Medievalismo na faculdade. Segundo semestre. De repente, ela estava lá. Bem próxima. Muito bela. Delgada, séria, olhos castanhos nublando a alma tímida e o universo reservado a poucos. Claro que me enxeri e fiz uma ou duas perguntas. Respostas monossibiladas (meu Deus, será que esta palavra existe? Se não existe, acabei de criar!) e só. Antes do final da aula, ela levantou e partiu. Meu olhar a acompanhou passando pelas cadeiras, cruzando o professor e saindo pela porta sem olhar pra trás. Olhei para o lado e Sidney também acompanhava aquela beleza particular, notada por poucos. Sorri para o bom e velho Sidney.
“Linda menina!” – eu disse.
“Sim” – ele respondeu – “Uma princesinha!”
Pronto. Nascia a princesa medieval.

Com o tempo, como é inevitável numa sala com poucos alunos, nos aproximamos acidentalmente para fazer um trabalho, e eu descobri outra qualidade da garota: ela era dona de uma inteligência impar. De qualquer forma, fiquei surpreso ao perceber que aquela menina tímida e reservada era uma mulher com objetivos esboçados e conquistas pessoais bem sucedidas. Aí sim percebi o quanto fui ingênuo ao pensar que a Princesa era apenas um rosto bonito. E nasceu Simplórius; um garoto bobinho e ingênuo com sonhos dignos de um rei. A canção veio em seguida, e desta vez, com letra e música que muito me agradou – e agradou muita gente enjoada minha gravação tosca que realizei em casa sem brilho, desafinada, mas muito sincera.   

São Paulo, 07 de Novembro de 2008. 07h04m
(manhã nublada, mas acho que o sol vai chegar!)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

AOS 36, COMO AOS 16, RETORNO E REENCONTRO BOB DYLAN OUTRA VEZ


Semana péssima.
A garganta, inflamada, não permite que minha voz ressoe por aí. Se fosse Marlon Brando em "O poderoso Chefão" seria lindo. Mas não é. Mas não sou.
Entreguei o TCC com dois dias de atrasos e R$40,00 gastos por desespero e burrice. E ainda acho que não cheguei a uma conclusão final. Inferno de semana.
E eu beirando os 36.
E acordo no dia 16 de junho, enfim.
Primeira coisa que faço: procurar aquele CD do Zé Ramalho cantando Bob Dylan.
As pessoas falaram mal do trabalho, mas tem umas músicas boas, sim; é só saber ouvir.
E eu ouço "tá tudo mundando".
 Dylan puro.
E eu volto aos meus 16 anos, ouvindo o "Highway 61 revisited" pela primeira vez.
O mesmo "revisited" que influenciaria "Rendez vous revisitado" e "G.R.A.ve" (Geladeira Revisitada Amarela e Vermelha". Dylan é tudo. O descobri duas vezes: na música e na poesia. E, de fato, fez minha cabeça - e como fez!
E certa vez, no Sesc Vila Mariana, quando eu ganhei um disco do Dylan pelas mãos do Marcelo Nova e do Luiz Carlini?!? Meu, minha vida poucas vezes foi tão rock n roll! (depois dessa, só os encontros com Jorge Mautner, quando ele me deu o "Deuses da Chuva e da Morte" e quando o Nasi tentou roubar meu isqueiro tipo zippo só que imitação barata que aliás até hoje nunca falhou diferente de uns zippos que falham mesmo.)

Por que volto a Dylan?
Não sei.
A verdade é que ainda me sinto com 16.
Não acho que fiquei muito mais inteligente do que já era nesta época. Talvez, sim, eu acho, mais esperto, mais observador, sabendo uma coisinha ou outra agora, como quando ficar de boca fechada pra não se estrepar e como flertar com uma garota - mesmo que isto não vá dar em nada, como antigamente.
Tirando isto, meu violão ainda é o mesmo: sem muita técnica, mas com muito rock n roll; meus contos também circulam os mesmos temas; aliás, começo a notar que são a continuação do mesmo num universo que se estende e existe, pulsante. Os amigos vinhos melhoram e são mais queridos a cada ano - e os amigos vinagres escorrem pelo ralo com mais rapidez hoje em dia.
Ainda amo animais.
Ainda acredito no amor,
nos filmes,
e que as mulheres são uma espécie de deusas, como todas as qualidades e defeitos que uma deusa deve ter. Ainda me sinto
inconsequente,
irreverente,
 irresponsável,
indaguento,
apaixonado
e violento.
Menos cabelos, todos os dentes, mas alguns já sem nervos para não doer. Ainda tenho sede de saber, descobrir, estar na noite com os amigos, flertar amores, me dedicar a uma paixão única, ouvir rock dos 80 no volume máximo, ler bobagens e, sobretudo, descobrir caras como Poe, Kafka, Machado de Assis, Albert Camus, Lou Reed, David Bowie, Iggy Pop e outras coisas fantásticas que descobri antes dos 20 e que até hoje me dizem muito, me mostrando novos mundos e novas descobertas,
como se eu ainda tivesse 16.
Ainda como se, pela primeira vez,
 eu colocasse Bob Dylan em meus ouvidos.